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27 de Setembro de 2021

O niilismo, a morte dos deuses, a vontade de potência, a filosofia do martelo e a democracia em Friedrich Nietzsche

Marcos Antonio de Almeida Filho, Estudante
há 6 anos

Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um filólogo (quem estuda uma língua em todos os seus aspectos), filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão do século XIX. Escreveu vários textos sobre religião, cultura, moral, filosofia e ciência.

Interpretar Nietzsche não é tarefa das mais fáceis, pois seus livros são escritos na forma de aforismos, ou seja, em forma de sentenças concisas, escritas sem levar em consideração aspectos formais da linguagem, isto é, sem uma estruturação lógica. Ele escreveu conforme as ideias vinham à sua cabeça.

Das suas obras pode-se extrair conceitos que são as chaves para compreendê-lo. Refiro-me aos “conceitos” de “niilismo”, “morte dos deuses”, “vontade de potência”, “filosofia do martelo” e democracia, que devem ser interpretados conjuntamente.

O escopo deste pequeno escrito não é, obviamente, exaurir o significado destes institutos “nitianos”, mas tão somente compreendê-los minimamente. Vejamo-los.

O Niilismo, em sentido comum, significa o oposto do Niilismo de Nietzsche. No sentido comum, representa a vida sem valores, sem ideologias, sem ideais supremos. Já o sentido dado por Nietzsche a esta palavra, representa o oposto, pois niilismo, na sua concepção, significa levar a vida pautada por valores supremos, por ideologias e por ideias supremas.

Interpretada esta premissa, pode-se seguramente afirmar que, para Nietzsche, a ideia principal do niilismo é negar as pulsões em nome de verdades absolutas. Dito de outro modo, consiste em abster-se de realizar condutas que, embora prazerosas do ponto de vista materialista, estão em rota de colisão com princípios supremos. Assim, em nome de valores absolutos, nega-se o mundo da vida, ou seja, o mundo material, do prazer.

No livro “Crepúsculo dos Ídolos”, Nietzsche afirma que Platão foi um Niilista. Concluiu isso porque Platão falava em “mundo sensível”, que é o mundo de ilusão, onde se encontram a maioria das pessoas, aprisionadas no mundo iluminado, onde somente podem ver sombras de imagens manipuladas por outros; e em “mundo inteligível”, que é o “mundo dos filósofos”, constituído por verdades absolutas, valores absolutos, onde o ser liberta-se da caverna e pode lançar seu próprio olhar para o mundo iluminado. Sucede que Nietzsche critica esta polarização, pois, no seu entender, a partir delas, Platão escraviza o homem, que sequer é alertado do que seriam esses dois mundos e como seria possível sair da caverna para alçar o mundo das verdades.

Para o filósofo alemão, Aristóteles também seria niilista. O pensamento aristotélico possui como referência o “cosmos”, que é certa ideia do mundo ordenado, onde cada um possui uma atribuição dentro do sistema. Se a máquina cósmica espera que o indivíduo faça tal coisa, e ele, por força de seus valores pessoais, não a faz, ele estaria em desarmonia com os “cosmos”, cometendo um grave pecado.

Por isso Nietzsche também critica o pensamento de Aristóteles, dizendo que o indivíduo, nesta concepção, não passaria de uma peça dentro da ideologia cósmica. Diz ainda, que este modelo mental também escraviza a vida, pois faz com que o indivíduo aja de maneira forçada sem que seja indagado se essa maneira de agir corresponde aos seus ideais individuais.

Em outras palavras, enquanto Platão escraviza a vida por intermédio da ideia de “mundo inteligível”, cujo caminho para se chegar até ele somente existe na sua concepção interna, Aristóteles escraviza a vida difundindo a ideia de “cosmos”, defendendo que o homem deve entrar na linha com o universo, sob pena de a ele não pertencer.

Daí pergunta-se: e se o sujeito não quiser ser o que o sistema manda ele ser? Essa pergunta mais que demonstra que a visão aristotélica, embora não seja essa a intenção declarada, redunda na dominação do indivíduo, pois o que importa é o “cosmos”, não o indivíduo isoladamente considerado.

Além de Platão e Aristóteles, os monoteístas, segundo Nietzsche, também seriam niilistas. Os monoteístas defendem que, além do mundo em que vivemos, existe um mundo de almas, sendo a vida mais adequada a que busca este mundo.

Ocorre que, para que esse mundo ideal seja alcançado, é necessário que o ser humano aja de forma harmônica com os ideais postos. Em consequência, o ser humano que busca esse mundo ideal blasfema contra a terra em nome do paraíso. Consequentemente, a vida real seria escravizada em nome de um modelo mental. “Inventaram o ideal para negar o real” (Nietzsche).

Uma vez compreendias as teses aristotélica, platônica e monoteísta, torna-se possível dar um passo adiante com o fim de compreender a “filosofia do martelo” de Nietzsche.

Nietzsche assevera que “melhorar a humanidade, eis a última coisa que eu vou prometer ”. Isso quer dizer que o mundo das ideias de Platão escraviza, o mundo dos cosmos de Aristóteles escraviza, e o mundo das religiões escraviza, bem como que qualquer outra concepção idealista escravizará. Mas, então, o que Nietzsche quer colocar no lugar dessas concepções? Nada, Nietzsche não irá colocar nenhuma “verdade” no lugar, pois sua teoria é de desconstrução, não tendo pretensão alguma de eleger um novo ideal, conforme declara: “Não espere de mim que eu erija novos ídolos”.

A Filosofia do Martelo, portanto, destina-se a “martelar” os ídolos, que é todo tipo de modelo mental que escraviza a vida. Nietzsche martela as certezas. Por isso a filosofia de Nietzsche é uma filosofia de desconstrução, pois com ela tenta mostrar que não existem verdades absolutas. Por isso afirmou: “Derrubar os ídolos, eis o meu métier”.

Segundo Nietzsche, “a invenção de um ideal, é a mentira maior, maldição que oprime a realidade”, razão pela qual sua tese de desconstrução não tem por fim destruir para reconstruir. Afinal, segundo afirma, “a humanidade tornou-se mentirosa e falsa até o mais profundo de seus instintos, até a adoção de valores contrários a outros que poderiam garantir um belo futuro”.

Com o intento de descontruir o que foi construído pelos “ídolos”, Nietzsche afirma que houve a “morte dos deuses”. Asseverou que “Deus morreu”, em sua feroz crítica ao cristianismo. Esta é, inegavelmente, uma frase provocativa, porque se Deus existe ele não pode morrer, porque Deus não morre. Se ele, Deus, não existe, ele também não pode morrer, porque para morrer é preciso ter existido.

Com essa frase, pretende Nietzsche denunciar a morte de uma forma de pensar, que ele chama de “Estrutura Religiosa do Pensamento”, que é a oposição definitiva entre o bem e o mau, entre o céu e a terra, a convicção de que o além é superior ao aqui mesmo.

Assim, quando Nietzsche diz que Deus morreu, quer dizer que está morrendo uma forma de pensar que apavorou uma humanidade durante séculos, de que o fora daqui é melhor que aqui. Esta sombra está indo embora, porque, segundo Nietzsche, “Deus morreu”.

Com efeito, a racionalidade humana matou os deuses, razão pela qual não há mais espaço para a divisão entre o “mundo das ideias” e o “mundo sensível”.

Trata-se, portanto, da morte de todas as visões morais tradicionais que repousam na oposição entre real e ideal, bem e mal, justo e injusto, porque é Deus que fornece fundamento para essas ideias, e a partir do momento em que “Deus morre”, estas ideias perdem seu maior fundamento, pois sem ele tudo rui, cai, acaba. Com “Deus morto”, morrem todos os ideais políticos, utopias de sociedades sem classes (inclusive a de Marx) etc.

Para além disso, Nietzsche denuncia todas as “muletas metafísicas”, eminentemente relacionadas com as polarizações “real e ideal”, “justo e injusto”. O termo “muletas metafísicas” representa o corpo fraco apoiando-se sobre alguma coisa para diminuir seu sofrimento. Denuncia que as “muletas metafísicas” é o que de mais ruim há na sociedade, o que impede a sua evolução, máxime porque a invés de a pessoa viver a vida como ela é, vive-se a vida pensando em um mundo que não existe. Por isso, segundo Nietzsche, não se pode apoiar-se em utopias, dogmas e religiões, pois são muletas. O indivíduo padece ao colocar suas forças em uma ideia criada a invés de buscar, com essas mesmas forças, seus próprios ideais morais e éticos.

E ao apoiar-se em “muletas metafísicas”, o indivíduo, além de tornar-se apenas mais um “tijolo no muro”, acaba por renunciar a “vontade de potência”, outro importante instituto nitiano, que significa, em linhas gerais, o “tesão pela vida”.

Prega Nietzsche que a vida do indivíduo deve pautar-se na busca incessante por mais “vontade de potência”. Uma vontade de potência busca mais vontade de potência, mais energia vital. Dito de outro modo, segundo Nietzsche, o indivíduo deve buscar todas as formas para que essas potências aumentem. Potência busca mais potência, isto é, o ser humano é energia que busca mais energia, mas isso, ressalta Nietzsche, nem sempre acontece, porque a busca pela “vontade de potência” esbarra em energia contrária.

Essa “vontade de potência”, que contamina todos os seres vivos, pode ser estudada a partir de dois tipos de força, que Nietzsche chama de forças ativas e forças reativas. Ativa é a que existe por si só, e é consubstanciada na positividade. Já a força reativa é a que existe para se opor a uma força ativa preexistente.

Assim, todos nós somos movidos por forças ativas e reativas, às vezes prevalece uma, ora outra. Mas o que se sabe é que o indivíduo forte é preferencialmente movido por forças ativas. O fraco, por sua vez, é o reativo, aquele que está o tempo todo espetando outros, isto é, o que combate, que vive para impedir o gozo do outro.

Para Nietzsche, existem certas atividades clássicas de forças ativas, sendo a principal delas a arte. O artista é movido por força ativa, pois faz aquilo que o corpo dele pede. A arte é, então, tudo aquilo que o homem faz como força de sua potência.

Por outro lado, a burocracia é uma força reativa, porque é criada para impedir que a força ativa da “vontade de potência” aumente. Cito, a título exemplificativo, o caso de determinada pessoa que resolve virar banqueiro, criando uma instituição financeira. Por mais dinheiro que ela possa possuir, certamente terá que enfrentar um longo caminho burocrático (força reativa) que, paulatinamente, vai reduzindo suas forças ativas até que seja reduzada a zero, fazendo com que desista de criar o tão almejado banco.

Cita-se também o caso de uma pessoa que, imbuída de força positiva, decide estudar arduamente para, quiçá um dia, ingressar na magistratura. A despeito de suas intenções e esforços, é bem provável que essa pessoa se depare com forças reativas (com pessoas reativas, portanto), que tenham o fim de impedir seu gozo, seu sucesso. Mas, volta-se a frisar, a força reativa só existe porque é destinada a se opor a uma força ativa preexistente, de modo que, desaparecendo a força ativa, a reativa também se extinguirá, sendo insignificante, portanto.

Com base nas ideias de Nietzsche, pode-se concluir que o indivíduo forte está sempre sozinho, porque a potência dele não pode ser somada às demais. Indiscutivelmente, não há possibilidade alguma de colocar Neymar e Schumacher no mesmo time, pois suas potências ativas são enormes nas suas respectivas áreas de atuação.

Já os reativos, por serem insignificantes, conseguem se unir. Por isso há inúmeras associações e, principalmente, grupos religiosos, que se ampararam nas “muletas metafísicas”, pois têm medo de seguir a vida em busca da “vontade potencial”.

Dito isso, é possível dar mais um passo na teoria de Nietzsche, interpretando a seguinte frase: “nós que defendemos outra fé, nós que consideramos a democracia não só como uma forma degenerada da organização política, mas como uma forma decadente e diminuída da humanidade que ela reduz a mediocridade, onde colocaremos nossa esperança?”

Percebe-se que Nietzsche é contra a ideia de democracia. Segundo ele, a iniciativa de estruturar a sociedade democraticamente adveio de reativos, isto é, de pessoas que, para conseguir serem ouvidas, uniram-se.

E a democracia valoriza aquele que, por várias razões, é imbuído de força reativa. Máxime porque, se depois de aferido o nível de “vontade de potência” de determinada pessoa atribui-se a ela a nota sete, mas o seu voto vale apenas um, ela estará em prejuízo, porque, para que saísse pelo menos com o empate, seu voto teria que valer sete. Por outro lado, se a pessoa vale zero e seu voto também vale um, ela estará em vantagem. Em outras palavras, o critério adotado pela democrática é quantitativo, não qualitativo, ou seja, o que conta é o tamanho do rebanho.

O interessante é que quando Nietzsche ataca a democracia, ataca a igualdade pois, na democracia, todos são considerados iguais; atacando a igualdade, ataca a forma religiosa de pensar, pois diz que não há possibilidade alguma de uma pessoa ser igual a outra e possuírem o mesmo valor, mormente porque o nível de “vontade de potência” varia de um para o outro.

Daí pergunta-se: na democracia, cada um vale um. A quem a democracia interessa? Interessa a quem é ruim.

Referências:

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1985.

NIETZSCHE, Friedrich.Ecce homo: como alguém se torna o que é. Tr. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. Das Letras, 1995.

NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. São Paulo: Vozes.

9 Comentários

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Conforme bem observado pelo colega Márcio Ribeiro de Campos, a fonte do texto pode ser verificada na décima aula do curso de Ética do Prof. Dr. Clóvis de Barros Filho, disponível gratuitamente na plataforma de ensino Veduca, ou através do link: https://www.youtube.com/watch?v=KI20SoJDKog continuar lendo

Assim que eu comecei a ler esse texto, percebi claramente que é um plágio fiel da aula do Professor Clóvis de Barros, que , deveria no mínimo, ser citado nas fontes. continuar lendo

Faltou citar o professor Clóvis de Barros Filho nas referências. O texto é uma reprodução quase integral das aulas desse ótimo docente da USP. continuar lendo

Parabéns Marcos, muito bom! continuar lendo